Cosméticos Sem Conservantes

No post passado, conversamos sobre os conservantes mais comumente utilizados em cosméticos, e demos especial atenção aos parabenos. Comentei com você que, por um apelo dos consumidores, existe um interesse grande da indústria em desenvolver cosméticos sem conservantes. Vamos, então, explorar um pouco mais este tema.

Cosméticos sem conservantes, isso é possível?

sem-conservantes

Vimos no post sobre parabenos, que os conservantes são muito importantes na conservação dos produtos e que, em sua ausência, os riscos de contaminação e, consequentemente, danos à saúde, são grandes.

Sendo assim, de modo simplista, cosmético “sem conversantes” não existe. O que existe são formulações cosméticas onde os conservantes tradicionais (tóxicos) são substituídos por componentes que possuem ação antimicrobiana, mas não são listados como conservantes pelas agências regulatórias (i.e. Annex VI do FDA, RDC 29/2012 da ANVISA e Annex V da CosIng – Europa).

Vejamos abaixo alguns exemplos destes componentes:

1. Componentes Polares de Cadeia Média:

1.1. Caprylyl Glycol:

Além de suas propriedades hidratantes e moduladoras de viscosidade, o Caprylyl Glycol possui ação antimicrobiana. Estudos demonstraram sua ação, tanto combinado com conservantes tradicionais (concentração de 0,3%), como único antimicrobiano em solução (concentração entre 0,5 e 1%).

1.2. Ácidos Graxos e seus Monoésteres:

Ácidos graxos de cadeia média como os ácidos heptanóico, caprílico, cáprico e láurico, bem como seus ésteres com glicerina e propileno glicol, demonstraram ação in vitro contra vírus, bactérias e fungos. Os ésteres Glyceryl Caprylate e Glyceryl Caprate, por exemplo, têm sido utilizados em concentrações entre 0,5 e 1% na conservação de géis de banho e xampus.

1.3. Phenethyl Alcohol:

Age sinergicamente com o Caprylyl Glycol. Soluções contendo 56-60% de Phenethyl Alcohol e 44-40% de Caprylyl Glycol têm sido utilizadas em concentração de 0,6 a 1,5% contra Staphylococcus aureus, E. coli, Pseudomonas aeruginosa, Candida albicans e A. niger.

1.4. Ethylhexylglycerine:

Utilizado por suas propriedades de desodorizante, emoliente, umectante e solubilizante de perfume. É ativo contra algumas corinebactérias gram-positivas (que participam da constituição da microbiota normal da pele e mucosa), mas não parece ativo contra bactérias gram-negativas ou fungos.

Sozinho, o Ethylhexylglycerine não é capaz de conservar cosméticos eficientemente. Entretanto, pode ser combinado com conservantes tradicionais de modo a reduzir a concentração destes.

2. Quelantes:

Agentes quelantes (EDTA, ácido láctico, ácido cítrico e ácido fítico) são compostos capazes de “seqüestrar” íons metálicos em uma solução.

Acredita-se que sua ação antimicrobiana deva-se tanto ao aumento de permeabilidade de membranas celulares (o que deixaria os micro-organismos mais sensíveis à ação de agentes antimicrobianos), como ao fato de bloquearem os íons de ferro necessários para o crescimento microbiano.

Deste modo, estudos indicam seu uso como adjuvantes na ação de conservantes tradicionais.

3. Álcool e Surfactantes:

Apesar de não serem considerados conservantes, também são compostos com potencial irritativo.

4. Óleos Essenciais e Extratos de Plantas:

A natureza oferece um amplo espectro de mecanismos de defesa contra a contaminação microbiológica. Existem vários óleos essenciais e extratos de plantas que possuem excelentes atividades antimicrobianas e que têm sido utilizados isoladamente ou em combinação com conservantes químicos.

Os óleos/extratos sabidamente eficientes como antimicrobianos são:

  • Thymus vulgaris (tomilho);
  • Origanum vulgare (orégano);
  • Rosmarinus officinalis (alecrim);
  • Lavandula officinalis (lavanda);
  • Cinnamomum zeylanicum (canela);
  • Melaleuca alternifolia (melaleuca);
  • Matricaria chamomilla (camomila);
  • Aloe vera (babosa)
  • Calendula officinalis (calêndula)
  • Hydrastis canadensis (goldenseal, raiz-amarela, raiz-laranja, hidraste e framboesa-de-chão);
  • Artemisia afra (artemísia);
  • Calamintha officinalis (erva-das-azeitonas);
  • Lonicera japonica (madressilva)

Óleos essenciais e extratos são realmente eficazes como conservantes?

Há muitos estudos disponíveis demonstrado a ação antimicrobiana dos óleos essenciais e extratos de plantas. Mas vou destacar um que fez uma comparação entre diversos óleos e extratos versus um conservante tradicional.

Neste estudo, foram comparadas as atividades antimicrobianas de extratos (Matricaria chamomilla, Aloe vera, Calendula officinalis) e óleos essenciais (Lavandulla officinallis, Melaleuca alternifolia, Cinnamomum zeylanicum) versus o methylparaben (metilparabeno).

Os extratos (concentração = 2,5%), óleos essenciais (concentração = 2,5%) e metilparabeno (concentração = 0,4%) foram testados contra Pseudomonas aeruginosa, Escherichia coli, Staphylococcus aureus Candida albicans.

Os óleos essenciais foram os que apresentaram maior atividade inibidora. Apesar da diferença de resposta entre os micro-organismos testados, os extratos e óleos essenciais mostram atividade antimicrobiana 0.8 a 1.7 e 1 a 3,5 vezes mais forte do que o metilparabeno, respectivamente.

Isso mostra que os extratos e óleos essenciais testados poderiam substituir o uso de metilparabeno, garantindo a pureza microbiológica do cosmético no âmbito do seu uso e armazenamento.

Onde encontrar cosméticos sem conservantes?

Como vimos, há sim algumas boas opções de substituição dos conservantes tradicionais, sabidamente tóxicos e causadores de alergia. Você deve, então, estar curioso (a) para saber onde encontrar estes produtos.

Infelizmente, porém, a realidade não é assim tão simples. Praticamente todos os cosméticos que encontramos no mercado hoje possui algum tipo de conservante tradicional. Mesmo aqueles ditos naturais e/ou orgânicos. Veja na tabela abaixo alguns exemplos (incluindo um shampoo orgânico):

conservantes-shampoos-naturais

O sodium benzoate, o sorbic acid e seu sal de potássio (potassium sorbate) são, aparentemente, opções menos nocivas que os demais conservantes que vimos no post sobre parabenos.

Ainda assim, estes 3 compostos aparecem nas listas de conservantes das agências sanitárias que listamos no começo do post e portanto, todos possuem limite de concentração (caso não fossem tóxicos, não haveria porque limitar a concentração, certo?!).

E por que será que isso acontece? Por que é tão complicado encontrar um cosmético sem conservantes tradicionais? Ora, porque eles, também, possuem suas desvantagens…

Desvantagens dos conservantes “alternativos”:

Apesar dos seus benefícios, especialmente em relação `menor toxicidade e maior biodegradabilidade, há alguns problemas na substituição dos conservantes tradicionais pelos alternativos, especialmente os extratos de plantas e óleos essenciais, entre eles:

  1. Podem causar mudanças de cor e odor, além de prejudicar a estabilidade da emulsão;
  2. Os óleos essenciais têm odor muito forte, especialmente quando usados em níveis eficazes (concentrações altas), o que pode ser altamente inadequado para alguns tipos de produtos (ex. maquiagens);
  3. Alguns extratos e óleos também reconhecidamente alérgenos. E os demais também podem causar alergias dermatológicas;
  4. Dependendo do componente, podem encarecer a formulação;
  5. São muito mais microorganismo-específicos em sua ação que os conservantes sintéticos, de modo devem ser cuidadosamente misturados de forma a proteger o produto contra a grande variedade de microrganismos que podem infectá-lo;
  6. Em alguns casos, uma redução da ação antimicrobiana tem sido observada por conta da volatilidade e lipofilicidade destes produtos.

 

Apesar dos apelos por produtos mais naturais e “verdes”, é importante notar que ambas as opções: sintética ou alternativa, possuem suas desvantagens e, por isso, ainda há muito estudo para ser feito em busca da solução ideal.

Por hora, o que nos resta é verificar para quais compostos somos mais sensíveis, conforme conversamos no post anterior, sobre parabenos.

E para você? O quanto o tipo de conservante impacta na sua decisão de compra? Conta pra gente aqui embaixo!

 

Referências:

— Herman, A., Herman, A. P., Domagalska, B. W., & Młynarczyk, A. (2013). Essential Oils and Herbal Extracts as Antimicrobial Agents in Cosmetic Emulsion. Indian Journal of Microbiology, 53(2), 232–237.

— Varvaresou, A., Papageorgiou, S., Tsirivas, E., Protopapa, E., Kintziou, H., Kefala, V. and Demetzos, C. (2009), Self-preserving cosmetics. International Journal of Cosmetic Science, 31: 163–175.

Resposta

Comente!

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

error: Conteúdo protegido.