Queratina Liquida: Proteína é sempre bom pro cabelo?

O cabelo é constituído basicamente de proteínas, água, lipídeos e pigmentos. Considerando a composição química, 80% do cabelo humano são formados por uma proteína chamada queratina. Sabemos também, que proteínas são agentes reconstrutores ou fortalecedores. É natural portanto, que a gente conclua que adicionar queratina liquida, ou qualquer outro tipo de proteína aos fios é algo benéfico.

Mas será que isso é sempre verdade? Todo tipo de cabelo se beneficia do uso de proteínas? Há diferença entre os tipos de proteínas que podemos usar nos fios?

Neste post, vamos tentar responder a estas e outras questões.

A primeira pergunta fundamental é:

Quem precisa de proteínas (queratina líquida)?

Há basicamente 2 razões pelas quais alguém usaria proteínas no cabelo: 1. Repor alguma perda de proteínas dos fios ou 2. Interesse nas propriedades benéficas das proteínas.

1. Perda de Proteínas = Dano Capilar:

A porção mais externa do fio de cabelo é conhecida como cutícula. A cutícula é formada por camadas que se sobrepõe (variando entre 5 a 10 camadas dependendo do tipo de cabelo). Estas camadas estão sobrepostas em um formato que se assemelha às telhas de um telhado.

Quando existe o dano capilar, as bordas destas camadas começam a se levantar, despregando-se da haste capilar. E se as agressões persistem, “lascas” de cutícula são arrancadas da haste, literalmente descascando a cutícula como camadas de uma cebola.
As proteínas agem neste tipo de cabelo preenchendo espaços, remendando as camadas e, também, formando uma camada sobre a cutícula, protegendo-a e ajudando a “selar” as “escamas”. Veja na imagem abaixo:

queratina-liquida-proteina-dano

2. Interesse nas propriedades benéficas das proteínas:

Além das propriedades listadas acima, as proteínas são hidratantes interessantes. São moléculas higroscópicas, ou seja, “capturam” a água do ambiente. Porém, diferente do sorbitol ou glicerina, que também são higroscópicos, as proteínas demoram mais a liberar esta água. Deste modo, ao se ligarem ao cabelo ou mesmo adentrarem na fibra capilar, levam consigo estas moléculas d’água. Porque a água é o que mantém o cabelo hidratado e um cabelo hidratado é forte e flexível, este é um benefício maravilhoso! Especialmente para quem tem cabelos lisos, finos e com tendência à oleosidade, que não aceitam bem óleos e/ou silicones.

Além disso, como veremos a seguir, alguns hidrolisados de proteína são capazes de se ligar aos fios formando filmes que, não só ajudam na hidratação e proteção da cutícula, mas também, “encorpam” os fios, algo desejoso para quem tem cabelos finos.

E como agem as proteínas?

Comecemos lembrando que toda proteína é formada por aminoácidos. Poucos aminoácidos, unidos em cadeias curtas, formam polipeptídeos. Muitos aminoácidos, unidos em cadeias longas, formam proteínas (Figura abaixo).

queratina-liquida-estrutura-proteinas
Para ser útil, uma proteína deve adsorver ao cabelo. Adsorver significa que as cadeias de proteína aderem aos fios através de ligações temporárias com o cabelo. Proteínas em estado “bruto” são muito grandes e, por isso, não conseguem formar estas ligações de forma eficiente.

Para trabalhar com o tamanho ideal de uma proteína, a saída é hidrolisá-las. Ou seja, utilizar a ação de enzimas ou do pH para quebrar estas proteínas em fragmentos menores. São estes fragmentos que vemos nos rótulos dos produtos com o nome “hidrolized”, ou hidrolisado (Figura acima).

Cada proteína hidrolisada tem uma faixa de tamanho. O tamanho (ou peso molecular) das proteínas é medido em daltons (Da).
Uma proteína em estado “bruto”, como o trigo, tem um peso molecular de 1.500.000 Da. Esta proteína de trigo pode, então, ser hidrolisada em fragmentos grandes, de 10.000 Da, ou mesmo, em fragmentos menores, de 2.000 Da.

O tamanho dos hidrolisados determina a sua função. Quanto maior o hidrolisado (> 10.000 Da), maior a sua capacidade de adsorver sobre o cabelo e formar filmes sobre os fios. Quanto menor o hidrolisado (<1.000 Da), maior a sua higroscopicidade, ou seja, maior a sua capacidade de se ligar à água. Pesos moleculares intermediários (1.000 a 5.000 Da) fixam-se bem nos fios e possuem uma ação condicionante, ou substantiva, mas não são formadores de filme tão bons.

A formação de filme traz muitas vantagens: hidratação, suavidade, maciez, redução da eletricidade estática, brilho, e proteção dos fios às agressões externas. Nos cabelos finos, este filme formado proporciona um pouco de corpo extra.

Os hidrolisados substantivos (tamanho médio), apesar de não formarem filmes tão bem como os hidrolisados maiores, também se fixam aos fios e, com isso, acabam tendo as mesmas funções que a dos hidrolisados maiores, só que em menor grau. Nos cabelos porosos e danificados, os hidrolizados substantivos preenchem os espaços gerados na cutícula do cabelo.

Os hidrolisados de menor peso molecular, por outro lado, além de serem mais higroscópicos (captam mais água), possuem maiores chances de adentrar nas camadas internas dos fios (especialmente nos fios mais porosos e se os hidrolisados forem menores que 250 Da). Com isso, são bons hidratantes, auxiliam na flexibilidade e no fortalecimento da fibra capilar.

Os aminoácidos, por outro lado, são pequeninos e bastante solúveis em água, portanto, há alguma discussão se seriam efetivos em uma formulação ou se seriam removidos durante o enxágue. Em geral, os estudos mostraram que a adição de aminoácidos a uma fórmula ajuda a recuperar o cabelo danificado preenchendo as porosidades (“buracos” na cutícula). Os aminoácidos também podem fortalecer e hidratar o cabelo por conseguirem adentrar na cutícula e levar a água que capturam para dentro dos fios.

Você pode estar se perguntando: “ok, mas se todos os tamanhos são positivos, que diferença isso faz na prática”? É uma boa pergunta…

A grande diferença está no seu objetivo em usar proteínas no cabelo.

Qual seu objetivo com o uso da queratina líquida?

Se você tem cabelos finos e não-porosos (ou pouco danificados), provavelmente o que espera de um produto com proteínas é a formação de filme, com um consequente ganho de volume, estrutura e diminuição do frizz. Vimos que apenas os hidrolisados médios e grandes possuem esta ação, assim, escolher um produto com proteínas maiores será fundamental para obtenção dos resultados desejados.

Se os seus fios possuem espessura de fina a média e precisam de hidratação, todos os tamanhos de proteínas são interessantes. Como vimos, proteínas são bons agentes hidratantes porque ligam-se facilmente à água. Os hidrolisados maiores manterão a água que “agarraram” ligada à cutícula. Já os hidrolisados menores e os aminoácidos levarão a água junto com eles para dentro da fibra capilar.

Já se você possui um cabelo grosso, o uso de proteínas maiores pode ser negativo para os seus cabelos. A formação de um filme de proteínas sobre um fio já de boa espessura pode torná-lo rígido, com perda de flexibilidade e aumento das chances de quebra!

Neste caso, a primeira coisa a se fazer é avaliar se o cabelo realmente precisa de reconstrução, ou se, na verdade, o problema é a falta de hidratação (mais comum nos fios grossos). Se for confirmado que o fio precisa realmente de reconstrução (muita química, clareamento, etc.), estiver muito danificado e poroso, o mais indicado é preferir fórmulas com hidrolisados menores, ou mesmo, aminoácidos.

Agora que você já sabe qual tamanho de hidrolisado deve ser melhor para os seus fios, deve estar pensando como faremos para encontrar estes compostos nos cosméticos.

Como achar a proteína certa?

E essa tarefa, infelizmente, é um pouco complicada… Em primeiro lugar, as soluções de proteínas hidrolisadas não são sempre iguais. Como vimos, é possível fabricar hidrolisados de variados tamanhos. E os rótulos não indicam o peso molecular dos seus hidrolisados e nem mesmo sua concentração (podemos inferir se a concentração é maior ou menor que 1%, mas não há como saber precisamente).

Entretanto, segundo as publicações, a maioria dos hidrolisados de proteína estão entre 1000 e 5000 daltons. Por isso,  são substantivos (ligam-se bem aos fios) e possuem funcionalidades de hidratação, fortalecimento e brilho.

Entretanto, existe sim alguma variação dependendo do tipo de proteína…

Em geral, as proteínas hidrolisadas abaixo têm um tamanho de médio a grande e, por isso, são mais substantivas (ligam-se melhor aos fios) e tem alguma ação filmógena (formação de filme):

  • colágeno (hydrolyzed collagen)
  • trigo (hydrolyzed wheat protein)
  • aveia (hydrolyzed oat protein)

As seguintes proteínas hidrolisadas, por sua vez, têm tamanho de pequeno a médio e, por isso, tendem a ser mais hidratantes que filmógenas:

  • soja (hydrolyzed soy protein)
  • milho (hydrolyzed corn protein)
  • seda (hydrolyzed silk)
  • queratinas hidrolisadas (hydrolyzed keratin e hydrolyzed human keratin)

De qualquer forma, se você possui um cabelo mais encorpado, pode ser mais interessante utilizar formulações ricas em aminoácidos ao invés de proteínas hidrolisadas, evitando os efeitos negativos da sobreposição de proteínas nos seus fios já espessos.

A composição também importa…

Diferentes proteínas são formadas pela combinação de diferentes aminoácidos. O aminoácido presente em maior concentração na α-queratina (queratina de maior concentração no nosso cabelo) é a cistina, seguido pelo ácido glutâmico. Há boas concentrações, também, de serina e prolina.

É de se esperar que proteínas mais semelhantes à α-queratina humana (> concentrações de cistina, ácido glutâmico, serina e prolina) tenham mais avidez ou liguem-se com mais facilidade aos nossos fios.

Vejamos, então, na tabela abaixo, um resumo da composição das proteínas sintéticas mais utilizadas em produtos para o cabelo:

queratina-liquida-tabela-aminoacidos

Perceba que o conteúdo de aminoácidos da queratina da lã de ovelha e da queratina humana sintética são muito parecidos entre si, e são, também, os hidrolisados de maior semelhança com a α-queratina. Com isso, são proteínas com boa adesão aos nossos fios.

Vemos, também, que a maioria das proteínas sintéticas é rica em ácido glutâmico. O colágeno e a proteína do trigo possuem boa concentração de prolina, enquanto que a proteína da seda destaca-se pela concentração de serina.

E se esta avidez ou facilidade de ligação é importante para os hidrolisados, são ainda mais relevantes no caso dos aminoácidos. Como vimos, por serem pequenos e solúveis, há grandes chances dos aminoácidos serem “lavados” dos fios durante o enxágue. Para que tenham alguma ação, é importante que consigam ligar-se à cutícula ou mesmo penetrar na fibra capilar.

Além dos aminoácidos que temos em maior concentração no cabelo (cistina, ácido glutâmico, serina e prolina), a arginina é um aminoácido com grande afinidade pelo nosso cabelo.

Alguns produtos trazem na composição a lista de aminoácidos presentes na fórmula (ex.: arginine, serine, etc.). Outros dizem apenas: “silk amino acids” ou “wheat amino acids”. Neste segundo caso, para saber quais os aminoácidos presentes em maior concentração, basta olhar na planilha de conteúdo de aminoácidos acima.

Exemplo: Para o “silk amino acids”, esperamos que os aminoácidos abundantes sejam alanina, glicina e serina.

Análise de produtos: Queratina Líquida Niely Gold

Para ilustrar melhor tudo o que dissemos, vamos fazer uma análise rápida da Queratina Liquida da Niely Gold.

Queratina_Liquida_Niely (1)

Segundo o rótulo:

“A Queratina Liquida Niely Gold fornece aos fios uma carga de queratina, repondo a proteína perdida nos processos físicos, químicos e naturais. Hidrata e restaura os fios danificados de dentro para fora, deixando os cabelos fortes e com muito mais brilho. 

Exclusividade Niely Gold Queratina: A MAXQueratina+ é um complexo de 13 aminoácidos essenciais para a saúde dos fios que penetram na fibra capilar, restaurando-a”.

Ingredientes:

Water
Alcohol
Keratin
Aminoacids (Arginine, Aspartic Acid, Glutamic Acid, Proline, Tryptophan, Alanine, Glycine, Leucine, Serine, Phenylalanine, Isoleucine, Valine, Threonine)
Comoamidopropyl betaine
PVP
Parfum
Methylchloroisothiazolinone and Methylisothiazolinone
Sodium Benzoate
Polysorbate 20
Lactic Acid
CI19140
CI15510

Sem entrar nos detalhes da formulação, vamos apenas aplicar o que vimos aqui no post. Começado pela promessa do rótulo, a primeira informação importante é  “(…) restaura os fios danificados”, ou seja, é um produto indicado para cabelos com danos. Confere com a nossa discussão de que os cabelos mais beneficiados com o uso de proteínas são os fios com danos.

Ao olhar a lista de ingredientes, encontramos “keratin”. É o terceiro composto mencionado, portanto sua concentração é relevante.

P.S.: “Keratin” não é a mesma coisa que “hydrolyzed keratin”. Estes compostos possuem números de identificação química diferentes. Entretanto, nas minhas buscas, encontrei fornecedores listando “hydrolyzed keratin” dentro da numeração CAS e nomenclatura INCI “keratin”. Por isso, estou interpretando que o produto deve conter “hydrolyzed keratin” (Niely, ou melhor, L’Oréal, me corrija se estiver errada!).

Sabemos que a “hydrolyzed keratin” tem um conteúdo de aminoácidos semelhante à queratina do nosso cabelo e, por isso, adere bem aos fios. Sabemos também que é um hidrolisado de médio a baixo peso molecular. É substantiva, mesmo que não sendo a melhor formadora de filme. Por isso, é bastante provável que o produto consiga cumprir o prometido: fornecer proteínas, hidratar, fortalecer e dar brilho aos fios.

É mencionado, ainda, que o produto traz 13 aminoácidos essenciais que penetram nos fios. Não entendi bem o que querem dizer com “essenciais”, mas vemos na composição que o produto possui 4, dos 5 aminoácidos que melhor se ligam aos fios: ácido glutâmico, serina, prolina e arginina, faltando apenas a cistina.

Em síntese, é um produto positivo para cabelos danificados, com bom potencial de hidratação. Deve ser usado com cautela em cabelos de espessura de média a grossa pela chance de enrijecimento dos fios.

Resumindo…

  • Nem todo mundo precisa de proteína (se o seu cabelo não está poroso, ou não tem danos e você o hidrata regularmente, não precisa necessariamente adicionar proteínas a sua rotina de cuidados);
  • Nem toda proteína é igual (elas variam em relação ao tamanho e conteúdo de aminoácidos);
  • Nem todo mundo se beneficia do uso de proteínas (se o seu cabelo é de médio a grosso, tome cuidado para não enrijecer os fios);
  • Proteínas são bons hidratantes;
  • Proteínas ajudam na recuperação temporária dos danos capilares;
  • Como sempre dizemos: cada cabelo é único! Nada substitui a sua observação sobre os efeitos de proteínas e aminoácidos nos seus próprios fios.

Agora me conta: você usa proteínas no cabelo? Qual produto você mais gosta? Já reparou quais proteínas trazem mais benefícios aos seus fios?

Referências:

Journal of Cosmetic Science, pg 69-87, 1993
Journal of Cosmetic Science, 58, 347-357 , 2007
Livro – Conditioning agents for hair and skin By Randy Schueller, Perry Romanowski
Livro – Principles of Polymer Science and Technology in Cosmetics and Personal Care By Errol Desmond Goddard, James V. Gruber
Livro – Handbook of Cosmetic Science and Technology, Third Edition (editado por André O. Barel,Marc Paye,Howard I. Maibach)
Livro – Conditioning Agents for Hair and Skin (editado por Randy Schueller,Perry Romanowski)
Livro – Hair and amino acids: The interactions and the effects (E. Oshimura, H. Abe, and R. Oota)
http://www.cir-safety.org/sites/default/files/hprtns052012slr.pdf

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