Sem Parabenos: Saiba Mais sobre Conservantes

É crescente a preocupação dos consumidores em relação à presença de compostos tóxicos ou potencialmente perigosos em cosméticos. E os fabricantes, sempre atentos aos apelos de seus clientes, respondem com um aumento na oferta de produtos “livres de parabenos”, “sem de corantes”, “sem sulfato”, “naturais”, “orgânicos”, etc.

Dentre os vilões mais citados, estão os já mencionados parabenos. Mas você saberia dizer o que há de tão ruim com os parabenos? E será que eles são os únicos compostos perigosos que encontramos nos cosméticos?

Sem Parabenos - conservante

 

O que são parabenos?

Parabenos são compostos pertencentes à “família” dos conservantes. Conservantes são compostos químicos adicionados aos cosméticos (e também aos alimentos) para prevenir a contaminação por micro-organismos.

Os produtos cosméticos podem ser contaminados de duas maneiras: durante o processo de fabricação ou pelo consumidor durante sua utilização. A contaminação pode causar mudanças indesejáveis no aspecto, odor ou cor dos produtos.

Além disso, cosméticos contaminados com bactérias e leveduras podem causar irritações ou infecções, particularmente sobre a pele machucada ou áreas sensíveis ao redor dos olhos.

Conservantes são adicionados aos cosméticos para manter sua pureza microbiológica durante a fabricação, o envase, o armazenamento e, especialmente, durante todo o período de utilização do produto.

Quais são os conservantes que encontramos nos cosméticos?

Mesmo que os fabricantes tenham mais de 50 diferentes conservantes para escolher, o mercado de cosméticos é dominado por apenas alguns: parabenos, conservantes liberadores de formol e a combinação da metilcloroisotiazolinona com a metilisotiazolinona (MCI/MI). Isso porque estes conservantes são bastante eficientes contra a contaminação por fungos, bactérias, leveduras e possuem ação em uma faixa ampla de pH.

Conservantes como o fenoxietanol, o ácido benzóico e o ácido sórbico são menos eficientes que parabenos, liberadores de formol e MCI/MI e, por isso, costumam ser utilizados em combinação com outros conservantes. Além disso, estes conservantes precisam de pH mais baixo para terem ação efetiva (o que pode dificultar o processo de formulação de um cosmético).

Para que você consiga relacionar estes nomes de conservantes com o que encontrará nos rótulos (que estão em inglês por conta da Resolução RDC 211/2005 da ANVISA), segue abaixo uma lista dos conservantes mais comumente encontrados nos cosméticos:

1. Parabenos:

Methylparaben
Ethylparaben
Propylparaben
Isobutylparaben
Butylparaben
Benzylparaben

2. Formaldeído e Conservantes Liberadores de Formol

Formaldehyde
Quaternium-15 (Cloreto de 1-(3-cloroalil)-3,5,7-triazo-1-azoniadamantano)
Imidazolidinyl urea
Diazolidinyl urea
DMDM hydantoin
Bronopol (2-Bromo-2-nitropropane-1,3-diol)
Tris(hydroxymethyl) nitromethane
Hydroxymethylglycinate

3. Outros Conservantes:

Methylchloroisothiazolinone/ Methylisothiazolinone (MCI/MI)
Methylisothiazolinone (MI)
Phenoxyethanol (PE)
Methyldibromoglutaronitrile/phenoxyethanol (MDBGN-PE)
Benzoic Acid
Sorbic Acid
Salicylic Acid
Timerosal

Para ver a lista completa de conservantes aprovados pela ANVISA, acesse a RDC Nº 29, de 1 de julnho de 2012.

E qual o problema em se usar conservantes?

Apesar de serem usados em pequenas concentrações, os conservantes são considerados como um dos principais causadores de alergias (dermatite de contato alérgica) nos usuários de cosméticos.

Há ainda, muito “barulho” em relação a outros possíveis efeitos nocivos, incluindo câncer. Uma busca rápida no Google sobre quaisquer um dos conservantes listados acima lhe trará uma lista de malefícios de arrepiar os cabelos! As postagens costumam começar com “x compostos tóxicos para se evitar”, “porque você deve fugir dos ingredientes x, y, z” ou “perigos escondidos nos cremes”…

Eu poderia lhe mostrar, para cada conservante que listei acima, todas as referências que tenho em relação à segurança e toxicidade de cada um deles. Entretanto, não acho que isso vá lhe ajudar. E vou explicar porque…

Em primeiro lugar, mesmo que você se convença que todo conservante é perigoso e deve ser evitado, será muito difícil você encontrar um produto livre de conservantes.

Em segundo lugar, eu, como farmacêutica, acredito na ciência. Ou seja, acredito no que é comprovado científicamente (e por instituições sérias). Assim sendo, não havendo estudos que comprovem que este ou aquele composto é, de fato, cancerígeno, para mim ele segue não sendo. Infelizmente, muitos artigos que circulam pela internet propagam informações sem a preocupação de checar a sua procedência e, muito menos, mostrar as referências do texto…

Em terceiro, eu confio no julgamento das agências sanitárias, sejam elas a ANVISA (que mais recentemente tem trazido decisões não apenas do parecer brasileiro, mas dos demais países do Mercosul), o FDA, o Comitê Europeu ou o Japonês. Por isso, se o composto é listado como seguro ao uso por estas agências, eu confio que ele é seguro.

Dito isso, vou me ater a discutir 2 compostos que, de fato, são os mais controversos: os parabenos e o formol (formaldeído).

O caso dos parabenos:

Tudo ia bem a vidinha dos parabenos até que, em 2004, um grupo de pesquisadores, liderados por P. Darbre, liberou um estudo demonstrando a presença de parabenos em tumores de mama.

Logo em seguida, rumores de que os parabenos estavam ligados ao desenvolvimento de câncer começaram…

O problema é que o estudo não comparou a presença de parabenos em tecidos normais versus tecidos cancerígenos. O estudo simplesmente disse que havia parabenos nos tecidos tumorais, e não reportaram se os parabenos poderiam ser encontrados em tecido normais.

E aí você pergunta: mas por que isso é importante?

Ora, se os parabenos estão presentes em ambos os tecidos (normal e tumoral), então é mais provável que a presença de parabenos no tumor seja por causa do uso normal de produtos que contenham parabenos e não uma razão para o desenvolvimento da doença.

Percebendo a confusão, ainda em 2004, P. Darbre respondeu no Journal of Applied Toxicology que: “Em nenhum lugar do manuscrito (seu artigo) foi feita uma afirmação de que a presença de parabenos tinha causado o câncer de mama, de fato a medição de um composto num tecido não pode fornecer evidências de causalidade“.

Isso significa que os parabenos não causam câncer? Não. Significa que, ao menos por este estudo, não há comprovação científica de que parabenos causem câncer.

Além de câncer, os parabenos também foram acusados de causarem desregulação endócrina, uma vez que possuem atividade estrogênica (imitam o comportamento do estrogênio, hormônio feminino).

Entretanto, dificilmente o uso tópico de uma concentração mínima de parabenos num cosmético poderia ter um efeito estrogênico superior à ingestão de vegetais sabidamente ricos em fitoestrógenos (substâncias vegetais com metabolismo semelhante ao estrógeno), como a soja, a linhaça ou o espinafre.

Estudos realizados nos Estados Unidos e Europa mostraram que a prevalência de alergia aos parabenos é menor que aos conservantes liberadores de formol ou ao MCI/MI. Este resultado foi condizente com um levantamento realizado na Universidade do Extremo Sul Catarinense (UNESC) em 2010, que mostrou que dentre os conservantes mais utilizados, a mistura de parabenos é a de menor potencial alérgico.

Liberadores de formol são uma melhor opção?

Então… na verdade, não muito…

O formol (formaldeído), quando inalado em alta concentração, é um composto carcinogênico comprovado (veja aqui a lista de compostos comprovadamente carcinogênicos). Por isso, na maioria dos países, seu uso em produtos aerossóis é proibido.

Na Europa, no Canadá e nos Estados Unidos, seu uso como conservante, em baixíssimas concentrações, é permitida. No Japão, o uso do formol é proibido em qualquer concentração.

No Brasil, acontece algo curioso. Em 2009, a ANVISA proibiu oficialmente a venda de formol, o qual vinha sendo utilizado nas escovas progressivas. Na RDC 29/2012, que lista os conservantes aprovados para uso no país e suas respectivas concentrações máximas de uso, não há menção do formol. Parecia portanto, que havíamos decidido seguir os passos do Japão e simplesmente proibir qualquer uso do formol. Entretanto, em 2013, uma nova resolução, a RDC 15/2013, voltou aprovando o uso de formol como conservante (0,1% para higiene oral e 0,2% para outros cosméticos).

No meio de tudo isso, temos os liberadores de formol, que, como o próprio nome diz, são conservantes capazes de liberar, gradativamente, quantidades pequenas de formol na solução em que se encontram.

São, por isso, bem menos tóxico e aprovados para o uso em todos os países que mencionamos, incluindo o Japão. Seguem, entretanto, sendo alérgenos e tendo restrições de uso (concentrações máximas permitidas), como os demais conservantes.

Conservantes: E como ficamos?

Conservantes são tóxicos e são alérgenos conhecidos. Seria muito melhor se pudéssemos viver sem eles.

Por outro lado, sabemos que o risco de infecções por contaminações também é um problema que deve ser combatido.

Segundo a avaliação das agências sanitárias ao redor do mundo, o uso de conservantes dentro das concentrações aprovadas, é seguro.

Mas ser considerado seguro, não significa que ficamos plenamente confortáveis com seu uso, certo?!

A boa notícia é que os fabricantes de insumos químicos e cosméticos já sabem que estamos insatisfeitos e queremos uma solução segura e menos tóxica. Há muita gente séria pesquisando os efeitos dos conservantes e formas de diminuir ou substituir seu uso. Como este é um outro tema extenso, vou deixar os detalhes para a próxima publicação.

Por hora, se você não é alérgico a nenhum conservante (ao menos que você saiba), minha sugestão é:

  1. Leia os rótulos dos produtos que usa frequentemente e anote os conservantes que encontra (ver a listinha acima para reconhecê-los).
  2. Observe se há algum padrão. Há algum conservante que aparece na maioria dos produtos?
  3. Faça o mesmo com algum produto que você achou que causou coceira, irritação, vermelhidão, ressecamento ou que, mesmo sem saber ao certo porque, você deixou de usar.
  4. Compare as listas. Veja se há um padrão ou diferença.

No estudo que citei acima, da UNESC (ver referência no final do post), o levantamento de prevalência de alergias entre os conservantes chegou ao seguinte resultado:

tabela-conservantes - alergiasLegenda: MDBGN-PE = Methyldibromoglutaronitrile/Phenoxyethanol , MCI-MI = Methylchloroisothiazolinone/Methylsothiazolinone

Veja se o mesmo se aplica a você. Perceba se você tem maior ou menor sensibilidade ao MCI/MI que aos parabenos. Ou se o seu organismo se adapta melhor aos liberadores de formol Diazolidinil ureia e Imidazolidinil ureia.

Agora, se você é alérgico a um determinado conservante, acredito que seu médico já tenha lhe instruído sobre a importância da leitura dos rótulos, para que você evite o uso dos produtos que contenham a substância que apresente o risco de desencadear sua alergia.

Lembre-se, também, de pensar na chances de reações cruzadas, então se você possui alergia a DMDM hydantoin, talvez outros liberadores de formol também lhe causem alergia.

Na próxima semana, falarei, então, sobre o que a ciência cosmética tem feito para tentar reduzir o uso de conservantes e como isso impacta nas suas decisões de consumo.

E você, o que acha dos parabenos?

Referências:

Herman A, Herman AP, Domagalska BW1, Młynarczyk A. Essential oils and herbal extracts as antimicrobial agents in cosmetic emulsion. Indian J Microbiol. 2013 Jun;53(2):232-7. doi: 10.1007/s12088-012-0329-0. Epub 2012 Nov 3.

Lundov, M. D., Moesby, L., Zachariae, C. and Johansen, J. D. (2009), Contamination versus preservation of cosmetics: a review on legislation, usage, infections, and contact allergy. Contact Dermatitis, 60: 70–78. doi: 10.1111/j.1600-0536.2008.01501.

Darbre, P. D., Aljarrah, A., Miller, W. R., Coldham, N. G., Sauer, M. J. and Pope, G. S. (2004), Concentrations of parabens in human breast tumours. J. Appl. Toxicol., 24: 5–13. doi: 10.1002/jat.958

Darbre, P. D., Pope, G. S., Aljarrah, A., Miller, W. R., Coldham, N. G. and Sauer, M. J. (2004), Reply to Alan M. Jeffrey and Gary M. Williams. J. Appl. Toxicol., 24: 303–304. doi: 10.1002/jat.988

Machado T. (2010), Potencial Alérgico de Conservante Cosméticos, Trabalho de Conclusão de Curso, Farmácia – Universidade do Extremo Sul Catarinense (UNESC).

Ministry of Health and Welfare (Japan) Notification No.331 of 2000

CosIng Annex V

Safety of Cosmetic Ingridients – Health Canada

ANVISA RDC 29/2012

ANVISA RDC 15/2013

 

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