Silicone para Cabelo: Mocinho ou Vilão?

Como vimos no post sobre a composição básica de um xampu, os silicones fazem parte da lista de ingredientes de uso comum em xampus, mas são também utilizados em condicionadores e produtos de finalização/modelagem dos fios. Eles geralmente têm nomes difíceis de pronunciar, como phenyltrimethicone, cyclopentasiloxane ou amodimethicone. Para facilitar as coisas , basta lembrar que a maioria dos ingredientes que termina em “cone” , “col”, ” conol” ou “xane” são provavelmente algum tipo de silicone.

Mas o uso do silicone para cabelo é foco de muita discussão. É sabido que eles amaciam, suavizam e dão brilho à cutícula do cabelo, além de proteger os fios da ação dos raios UV, da umidade e do uso de calor (secador, prancha e afins).

Em contrapartida, os silicones podem ser difíceis de remover e acumular-se no cabelo. Por isso, dependendo da rotina de lavagem, modelagem e tratamento capilar de cada um, com o tempo, podem deixar uma untuosidade indesejável (aspecto oleoso ou sujo), além de ressecar os fios.

Por conta destes efeitos indesejáveis, formou-se uma corrente “anti-silicone” e muitos produtos passaram a se vender como “silcione-free”, ou seja, livre de silicones.

Mas será que estes efeitos indesejáveis são tão piores assim que os inúmeros benefícios que o silicone traz aos fios? Se estes efeitos dependem da rotina de cuidados dos fios, será que não há uma forma de amenizá-los? E será que todos os silicones se comportam da mesma forma?

Vamos, então, tentar responder a estas perguntas.

Silicone_para_cabelo

Função do Silicone para Cabelo:

A finalidade do uso de silicone para cabelo é revestir os fios com uma micro-camada bem fina de condicionadores. Esta camada, além de proteger os fios dos “ataques externos” (umidade, calor, irradiação solar, poluição, etc.), produz brilho, reduz o atrito, facilitando o ato de pentear e evitando a formação de nós ou emaranhados e reduzindo o risco de quebra.

Esta camada de condicionadores também é a responsável pela maciez (na minha modesta opinião, incomparável!) percebida nos fios após o uso de produtos que contém silicone. Além disso, os também ajudam na espalhabilidade de outros ingredientes condicionadores, melhorando a ação de outros compostos.

Por conta de sua estrutura molecular, os silicones não são (a não ser que sejam modificados quimicamente para isso) solúveis em água. Ou seja, eles não se misturam com a água, da mesma forma como um óleo ou azeite não o fazem.

Esta característica, por si só, gera uma outra ação benéfica nos fios: a formação de uma barreira de vedação de água, que evita a perda de umidade (desidratação) dos fios e ajuda a reter a cor (tintura/coloração), tornando o cabelo mais hidrofóbico (“inimigo” ou repelente à água).

Quando pensamos na formação de uma camada hidrofóbica/apolar ao redor dos fios, podemos nos lembrar de outros compostos que possuem ação semelhante: os óleos e manteigas (argan, rícino e cia). Entretanto, ao contrário dos óleos vegetais, os silicones não são susceptíveis a causar reações de sensibilidade da pele. Portanto, mais um ponto pro nosso amigo silicone.

Em resumo, os benefícios esperados do uso de silicone para cabelo são:

  • Brilho
  • Maciez
  • Proteção (umidade, calor, irradiação solar, poluição)
  • Facilidade para desembaraçar e prevenção de nós
  • Prevenção da quebra
  • Prevenção do Frizz
  • Manutenção da umidade/hidratação
  • Manutenção da cor
  • Baixo risco de sensibilização ou alergia

Eu não sei você, mas eu ADORO silicones!! Rsrsrs…

Forma de Ação do Silicone para Cabelo:

A concentração de silicones geralmente utilizada em um produto capilar é de 1 a 2 por cento. Isso significa que os silicones diluídos nas formulações cosméticas não são capazes de formar uma barreira sólida em 100% dos fios ou na totalidade da extensão de cada fio.

Como vimos no tópico anterior, os silicones são, em sua maioria, apolares, hidrofóbicos ou “inimigos” da água. O cabelo saudável, sem danos, também é hidrofóbico. Por conta disso, as moléculas de silicone de um produto ligam-se melhor às áreas não danificadas dos fios.

Entretanto, o ideal seria que o silicone se ligasse às áreas danificadas (que são polares, hidrofílicas ou “amigas da água”, além de serem carregadas negativamente), melhorando seu aspecto e protegendo os fios onde eles mais precisam.

Para resolver este impasse, químicos, formuladores e cosmetologistas lançaram mão de duas estratégias que melhoram a eficiência do uso de silicones, são elas:

1. Combinar silicones insolúveis com surfactantes catiônicos:

Conforme vimos no post sobre detergentes, os surfactantes catiônicos possuem sua cabeça polar carregada positivamente. Com isso, são atraídos para as áreas danificadas (carregadas negativamente) dos fios. Como todo surfactante, além da cabeça polar, possuem uma cauda apolar, ou hidrofóbica que se ligam adivinha com quem? Com nossos amigos silicones insolúveis, formando como uma “ponte” entre a área danificada e os silicones.

Para que você consiga verificar se os produtos que você usa lançam mão deste artifício, os surfactantes catiônicos mais comuns são os quaternários de amônio, tais como:

  • Behentrimonium Chloride
  • Behentrimoniu Methosulfate
  • Cetrimonium Chloride
  • Cetrimonium Bromide
  • Guar Hydroxypropyltrimonium Chloride
  • Benzalkonium Chloride
  • Benzathonium Chloride
  • Methylbenzethonium Chloride
  • Cetalkonium Chloride
  • Quaternium-(números variáveis)
  • Polyquaternium-(números variáveis)

2. Modificar quimicamente os silicones para que se tornem solúveis:

A forma como os químicos conseguiram a proeza de tornar os silicones solúveis foi ligá-los a compostos longos e polares: os polímeros hidrossolúveis PPE (polietilenoglicol) e PPG (polipropilenoglicol). Com isso, é como se tivessem dado ao silicone “cauda” polar ou hidrofílica, capaz de ligar-se à água.

Em termos práticos, se você vir a abreviatura “PPG” ou “PEG” na frente do nome do silicone, isto significa que ele foi especialmente desenvolvido para ser solúvel em água. De qualquer forma, cuidado para não confundir traço com vírgula.

Exemplo: O PEG-8 Dimethicone é um silicone solúvel em água. Já PEG-8, Dimethicone indica ou um erro de digitação ou dois ingredientes individuais, separadas por uma vírgula.

Outro tipo de silicone solúvel provém da ligação deste com um hidrolizado de proteína, como o Hydrolyzed Wheat Protein Hydroxypropyl Polysiloxane.

Por serem polares, estas “caudas” possuem maior avidez pelas regiões danificadas (negativas) e, com isso, ajudam na ligação do silicone com as áreas mais necessitadas.

Entre as opções 1 e 2 acima, a 1 é a mais eficiente em termos de ação do silicone, mas também é a mais propensa a deixar resíduos de silicone nos fios, uma vez que a aproximação positivo-negativo é mais forte.

Acúmular-se vs. Deixar Resíduos:

Vimos no começo do post, que a maior desvantagem do uso de silicone para cabelo é a dificuldade de remoção e a chance de acúmulo do composto nos fios.

Mas navegando pela internet a gente vê uma certa confusão entre dois conceitos diferentes no mundo dos silicones: acúmulo e resíduo.

Comecemos pelos resíduos. Como vimos, a maioria dos silicones é insolúvel. Portanto, só enxaguando os cabelos com água, você não conseguirá removê-los (assim como você não tira gordura de uma panela só com água). Mas se você utilizar um xampu (que contém detergentes), na maioria dos casos, você resolverá a questão.

Claro que há diferenças na facilidade ou dificuldade de remoção de um silicone. Vimos que hpá silicones solúveis que, portanto, saem com água pura ou xampus suaves, infantis. Já outros silicones, insolúveis, grandes, com conformações específicas ou ligados a outros compostos, podem grudar pra valer e só um detergente forte conseguirá removê-los.

Já o acúmulo, é outra questão. E refere-se à tendência que alguns silicones têm de acumular-se sobre eles mesmos. Neste caso, além do silicone ser naturalmente mais difícil de remover, ele ainda faz a gentileza de ir formando camadas dele sobre ele mesmo ao longo do uso.

E o que isso traz de ruim pros fios?

Resposta rápida: aparência de sujo, lambido, pesado, oleoso.

Agora a resposta técnica… Com a formação de uma camada grossa de silicone nos fios, o cabelo pára de receber quaiquer nutrientes, emolientes ou hidratantes que você der a ele. Ele vai ficando rígido, duro mesmo, e isso facilita sua quebra, pois a elasticidade é importante para a saúde dos fios, evitando o rompimento durante a escovação, lavagem, etc.

Além disso, os silicones são, em geral, permeáveis ao vapor de água, mas, como vimos, insolúveis. Isso significa, que a água que está dentro do seu fio de cabelo, vai saindo ao longo do tempo na forma de vapor e consegue atravessar a parede de silicone. Entretanto, a água de fora, assim como os compostos hidratantes que você está dando aos fios não vão passar pela barreira de silicone. Resultado? Um cabelo seco, opaco, sem vida.

Mas calma. Não é o fim do mundo.

Em primeiro lugar, os silicones propensos a causar acúmulo são menos comuns nas formulações. E há formas simples e baratas de arrancar a “crosta” de silicone dos fios. Mas antes da gente entrar em detalhes sobre o “tratamento anti-acúmulo”, vamos fazer um resumo dos tipos de silicone que vimos até aqui.

Tipos de Silicone para Cabelo:

Há várias formas de classificar os silicones, seja pela solubilidade em água, seja pela eficácia ou força de ação. Eu preferi usar a classificação de facilidade ou dificuldade de remoção/chances de acumular-se. Segue o resumo na tabela abaixo:

tabela_silicones2

tabela_silicones

Há, obviamente, muitos outros silicones além destes listados na tabela, mas seria impossível mantê-la completa e totalmente atualizada, considerando que a indústria não pára de inovar e lançar novos ingredientes no mercado.

Tratamento Anti-Acúmulo:

Conforme prometido, seguem abaixo as 3 formas principais de remover quaisquer acúmulos de produtos do seu cabelo (e isso vale para qualquer composto acumulado, não somente silicones):

Opção 1: Lave os cabelos com um shampoo de limpeza profunda, anti-resíduo, purificantes. Como vimos no post sobre os tipos de xampus, estes produtos possuem forte detergência, que limpam com vigor qualquer resíduo que haja nos fios.

Opção 2 – Bicarbonato de sódio: Adicione 1 colher de sopa de bicarbonato de sódio para a quantidade de xampu que você usaria normalmente, em seguida, mexa com uma colher até que esteja bem misturado. Um método alternativo é molhar seu cabelo, esfregar um pouco de bicarbonato de sódio no cabelo molhado, enxaguar e, então, lavar como de costume.

P.S.: Devido ao fato do bicarbonato de sódio ter o pH elevado, ele pode ser um pouco agressivo com seu cabelo, deixando as cutículas abertas. Para contrabalancear este efeito, use um condicionador com pH baixo ou dê um enxágue com vinagre de maçã (já que é difícil a gente saber o pH dos condicionadores).

Opção 3 – Vinagre: Você pode usar vinagre branco ou vinagre de maçã. Existem várias maneiras de usar o vinagre para eliminar o acúmulo de produtos do seu cabelo. Você pode usá-lo como um enxágue antes do shampoo (1 a 2 colheres de sopa), adicionar 1 colher de chá de vinagre à quantidade usual de shampoo em sua palma da mão e então lavar os cabelos com esta mistura, ou usá-lo após o xampu. Neste último caso, adicione 1 xícara de vinagre para 4 xícaras de água quente, e deixe a solução descansar por meia hora. Após a lavagem, despeje esta solução no seu cabelo e couro cabeludo. Certifique-se de enxaguar completamente e, então, passe condicionador de uso regular.

Considerações Finais:

Depois de tanta informação, você pode estar se perguntando “Tá, mas e aí? Uso ou não os silicones?”.

Resposta padrão: Depende. E depende de muitos aspectos…

Primeiro, depende do seu cabelo. Cabelos são sempre diferentes uns dos outros. Conheço irmãos gêmeos idênticos em que um tem calvície (com menos de 40 anos) e o outro não. Por mais que a gente goste de sim/não, certo/errado, bom/ruim, quando falamos sobre corpo, saúde, beleza, é praticamente impossível ditar uma regra. Há cabelos que simplesmente são blindados contra o acúmulo de produtos. Já outros parecem uma esponjinha: absorvem tudo.

Segundo, depende da sua rotina de cuidados com o cabelo. E, neste ponto, podemos tentar montar um fluxograma (por que será a gente adora uma regrinha, né?!):

FLUXOGRAMA_SILICONES

Ufa! Espero que com isso tenhamos respondidos as nossas perguntas iniciais e, quem sabe, outras. E se você tiver alguma pergunta, só escrever nos comentários aqui em baixo!

Referências:

Livro: Berthiaume, M.D. (1999). “Silicones in Cosmetics.” In Goddard, E.D. & Gruber, J.V. (Eds.), Principles of Polymer Science and Technology in Cosmetics and Personal Care, (275-324). CRC Press.

Posts:

http://science-yhairblog.blogspot.com.br/2014/04/silicone-ingredient-solubility-list.html

http://www.curlynikki.com/2011/10/silicone-hair-products-not-so-bad.html

http://www.curlynikki.com/2012/08/understanding-silicones-natural-hair.html

https://www.reddit.com/r/HaircareScience/comments/1woutk/all_about_silicones

 

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